GAITEIROS COM SENHORITA
Martazul


     Captatio benevolentiae Sirva como disculpa dos erros que se poideram atopar na primeira parte do presente texto, o valor da osadia que supom adentrarse em terreos terminológicos e de apreciaçom mais que movediços para os nossos pequenos pes e o nosso grande desconhecimento da geografia na que avançamos.

A senhorita cháma-se Ecléptica Órbita Miguens Lustres [Maruxa] e conta com 67 anos de história. Os gaiteiros correspondem ao quarteto de gaitas liderado por José Romero Suárez [Pepe]: "Os Rosales" de Asados (Rianjo).

 

"CANTO MELHOR SI PODO ABRIR COM FORÇA QUE ASSIM OPRIMIDA." [Maruxa]

O que mais nos chama a atençom ao "mirar" cantar a Maruxa é precisamente o que vemos: a postura do corpo e do seu rostro. Maruxa canta relajada, aparentemente sem esforço.

A espalda mantem-se tal vez excesivamente recta, mesmo algo tirante às vezes, numa postura "botada pra diante" que, por outra banda, é cotidiana em ela e nos resulta familiar si pensamos noutras mulheres nadas naqueles anos 30. Observamos um corpo em equilibrio que permite uma respiraçom fluida e natural. Ela comenta que ao cantar respira sobre a marcha, aprobeitando o espaço que lhe brinda o paso duma copla a outra para tomar ar. Ela di que respira, nos nom somos moi consciêntes disto. Em raras ocassions se percibe um ligeiro movemento do torax e os ombros. A sua respiraçom será possivelmente completa e/ou abdominal e nos momentos de canto simultaneado cos toques de bombo debera recurrir mais à respiraçom costo-lateral. Ela mesma afirma a necessidade de estar de pe para poder "abrir" ( e fai referência ao peito, à inspiraçom) e cantar com "força".

Nom obstante Maruxa experimenta certa dificultade, que ela mesma expressa com gestos, no momento final dalgumas coplas que coincidem com notas mais baixas. Maruxa achaca o problema aos anos e a "nom ter uma gorxa como quando era uma chavala". A tençom identifica-se mais bem com falta de ar e nom tanto com problemas de garganta, se nom de respiraçom, de potência, em definitiva de volume. Assim nom observamos ningum bloqueo deste tipo nos videos das actuaçons de Os Rosales dos anos 90 na TVG. Pode tal vez que co tempo se notar mais o efecto do ligeiro arqueamento da espalda hacia dentro que provocara certa tençom no uso da voz ou simplesmente as forças e as capacidades, pulmonares neste caso, som menores.

O rostro de Maruxa permanesce totalmente relajado mentres canta, em ningum momento tensa a fronte nem frunce o "ceño". A dicçom é mui marcada; queremos dizer com isto que cada palavra está perfectamente pronunciada e cada frase é claramente comprensivel na cantiga. Os beiços anunciam a emissom de cada som (em especial dos timbres vocálicos meios e centrais - o, e, a) que é articulado limpamente.

Parelha a esta articulaçom bucal é salientavel a articulaçom xestual, mesurada mas em todo momento presente. Quando estamos com ela tras cantar Maruxa fai uma recitaçom das coplas sem melodia e trata-se em realidade duma interpretaçom das mesmas, tanto na entonaçom como na gestualidade da cara e das maos, todo com um certo "deje" escolar (polo que tem de representaçom sem chegar á ampulosidade). Quando canta gesticula igualmente e entona cada copla atendendo ao contido da mesma. Percibimos o canto de Maruxa como um canto limpo e homogêneo, cuma emissom redonda, envolvente.

A voz coloca-se no peito-faringe e nos resoadores nasais, alternando nuns e outros segum a gravedade ou agudeça do fragmento interpretado, mas predominando o emprego dos primeiros.

 

"Si tenho que cantar baixinho é peor." [Maruxa]

Maruxa entrenou-se durante mais de trinta anos no canto acompanhado de gaitas e do bombo que ela mesma tocaba. A sua cavidade torácida deveu igualar a potência dos foles. Som diferentes os recursos empregados para este tipo de canto que os empregados por ejemplo na actualidade para o trip-hop que deixa a voz num segundo plano com respecto às bases melódicas e rítmicas coas que se joga fazendo-lhes a miudo a funçom de susurro. Ela alcança a plenitude vocal dotando ao canto de toda a potência possivel sem chegar ao berro ou griterio cuma adecuada impostaçom da voz.

 

"É uma mulher de voz natural" [Pepe Romero]

A voz situase no corpo do que fluie e atopa em este a sua possiçom e ejecuçom mais propria, o que concede ao conjunto a sua naturalidade.

Nada era forçado. Maruxa fai memoria e so lembra problemas coa voz numa ocassom na que tivera um resfriado durante uma época na que Os Rosales tinham actuaçons diarias. O único remedio os caramelos de menta e nalguma momento crítico de moitas horas seguidas de trabalho "um sprai para limpar".

A incorporaçom dos altavoces nos espectáculos das orquestras coas que o quarteto compartia cenario deu-lhe mais força e valor ao canto. Os primeiros forom moi rudimentários, em forma de embudo, despois chegarom as caixas. A amplificaçom foi importante para gaitas e percussons e mais em especial para as voces que atoparom naquela uma grande ajuda.

As gravaçoes e os micros. Imponhem mas dam a oportunidade de repetir que nom tem o directo. A primeira vez gravarom todo junto. A segunda por um lado gaitas e percussom e por outro a voz. 1984 Lembrando e 1986 De foliada em Sam pedro de Vilas.

 

"A minha gorxa nom é de cantar, é de acompanhamento." [Pepe]

A segunda voz, neste caso ejecutada por Pepe Romero (quando Os Rosales estavam em activo levada em muitas ocassioes polo filho maior de Pepe e Maruxa), conhece o seu labor e fica num segundo plano. É voz de acompanhamento e nom busca por tanto sobressair por riba da voz principal, modera a sua potencia.

Pepe acompanha a Maruxa cuma voz terçeira descendente que resulta em todo caso aguda para o seu timbre de voz.

 

"Meu estilo é meu, nasceu-me assim." [Maruxa]

O estilo goça de certa "ampulosidade". Este efecto provoca-se pola colocaçom da voz mas tambem polo tipo de adornos empregados no canto.

Maruxa canta ao unísono coa gaita facendo-lhe a segunda voz ao instrumento. A línea melódica é a marcada polo instrumentista e os recursos empregados pola voz siguem parellhos aos de aquel. Deste jeito estiram-se e enlaçam-se as sílabas (os golpes de voz nom som tales ) e realizam-se os característicos finais de copla em vibrato.

 

"NAO HABIA QUEM TOCARA E CANTARA." [Pepe]

Ecléptica Órbita Miguens, Maruxa, aprendeu a cantar nas fiadas, no lavadoiro... Conta que quando era moça, nos anos quarenta, o único dia festivo da semana, o domingo, juntabam-se as raparigas a tocar a pandeireta e cantar. Cantabam cançons picantes e tirabam-se indirectas as umas às outras ou aos rapaçes que ficabam doutro lado. O repertório nutria-se de coplas conhecidas e doutras que inventabam no momento:

"Hoje nom se fai. Hai muita música nas casas e nom é necessário pero daquela ibas á herba pra os animais e sentias à gente cantar por todos lados cançons em castelán e em galego. No rio ao lavar a roupa... A auga fai-che o fondo. Acompanhaba-la ti. Cantaba-se o que salira, o que se recordava. Cantavas a todo. Hoje nom sintes cantar por nengum sitio. As 10 da noite vinhas em pandillha de volta duma festa e vinhas cantando. Acompanhabas com palmas. As chavalas púnham-se num corro a cantar. Quando havía um acordeom xa habia uma festa".

No ano 1953, quando contava 19 anos, Maruxa casa com José Romero de 23, "maestre" (como el mesmo di) do grupo "Os Rosales". Este quarteto (duas gaitas, tamboril e bombo) nasceu aproximadamente um ano antes como descendente directo do anterior grupo de Pepe, "Airinhos da minha terra", que desapareceu ao ter que ir Pepe ao serviço.

Maruxa adoitava participar nos ensaios do grupo que se façiam na sua casa de Asados, em Rianjo. Conhecia perfectamente o repertório do grupo e gostava de acompanhalo co canto, botando mao das cançons que aprendera de rapariga.

Em 1962, durante uma festa em Escarabote, Alfonso, irmao de Pepe e bombeiro da formaçom, rompe um braço ao subir ao cenario. Nessa mesma época tem uma baixa a gaita. Num momento clave da migraçom pocos eram os homes aos que poder recurrir para completar o grupo. A "Sección Femenina" presta-lhes um traje regional de mulher e Maruxa se incorpora de cheo no grupo, coa voz, co bombo e com outras percussoes (cunchas e pandeireta coas que a miudo acompanhaba o canto).

As peças compostas por Pepe alternavam as partes musicais de diferentes características coas partes cantadas, a inclussom duns instrumentos nuns momentos e o seu enmudecimento noutros, para dar-lhe maior vida e coherencia ao conjunto de vocal e instrumental.

Simultanear música e canto resultava algo totalmente innovador para um grupo de gaitas. So atopamos tal peculiaridade noutras duas formaçons destas características: Os Dezas de Moneixas em Lalim e Os Areeiras em Catoira. Os Dezas ja simultanearom nos anos cinquenta gaitas e canto mas com presencia exclussiva de vozes masculinas e com um concepto do espectáculo mais cercano aos coros que incluia baile e dramatizaçom. Os Rosales desconheciam a existência deste grupo. Nom sucede o mesmo cos Areeiras de Catoira. Pepe admirava a este quarteto de formaçom anterior ao de Asados que introduçia alguma peça cantada no seu repertório tam so de forma esporádica, como os mesmos Rosales faziam antes da incorporaçom de Maruxa.

Vívesse uma época de decaimento da gaita e um grupo como Os Rosales, mesmo contando co privilêgio de ser em tempos o único de Compostela a Ribeira, tem que avançar para sobrevivir.

A primeira gram innovaçom de Os Rosales foi a integraçom plena na agrupaçom da voz femenina e o predominio no seu repertório das peças cantadas. A incorporaçom de Maruxa resultou determinante para o quarteto. A chegada das orquestras obrigou-no a renovar-se.

 

"Hai que innovar as cousas." [Pepe]

Junto co canto Os Rosales experimentarom outros cambios. Co auge das orquestras e as bandas era precisso variar repertório para que o quarteto fora competitivo.

"Havia que botar bailaveis, moitas rumbas e moitos pasodobles... para que a gente bailara como si fora uma banda de música. (...) ata fixem um bolero para gaita" [Pepe Romero].

Os anos 70 e 80 forom os melhores para a formaçom familiar. A orquestra era uma novedade e nom havía cartos para levar bandas às festas. A organizaçom levava um grupo de gaitas para a alborada e para a processom e o grupo façia tambem a entrada e os intermeios da orquestra.

Na grande época das bandas de música Os Rosales tocavam como uma banda e mesmo façiam cantar ao público. As xentes coreavam com Os Rosales nom so "Airinhos Aires" (o seu nº 1 do momento) e os outros temas compostos polo grupo, sempre em galego, se nom tambem os éxitos radiofónicos do momento: desde os mais conhecidos de Jorge Negrete a "la raspita" passando por "Adelita", "Mª Isabel", "El negro zumbóm" ou por alguma cançom de Victor Manuel si havia que actuar em Asturies e a ocassom o requeria.

Quando o quarteto empeçou a quedar novamente baixo Os Rosales experimentarom com as diferentes tonalidades da gaita e as suas combinaçoes harmónicas (sempre coa pressencia da voz) e finalmente coa incorporaçom do acordeom.

 

"A PARTE FEMININA." [Pepe]

A incorporaçom de Maruxa foi determinante para a supervivência de Os Rosales. "Por um grupo de homes nom vinham ata Asados. Pola atracçom da mulher sí." [Pepe]. Era totalmente inusual ver a uma mulher num grupo de gaitas.

A orquesta Paris, uma das moitas coas que o grupo compartiu cenario, tinha como cantante a Constante apodado "o gitano" pola cor oscura da sua pel. "O gitano" era conhecido pola sua comicidade que o levaba a disfraçar-se para a interpretaçom dalgúns temas (de árabe por ejemplo para cantar "mustafá"). Quando Os Rosales coincidirom coa Orquesta Paris em Maçaricos conta Maruxa como o público desconcertado comentava que ela era Constante fazendo a parodia dum gaiteiro vestido de mulher.

Naqueles recem estreados anos 60 "a mulher estaba privada de todo". "Eu botei todo às espaldas e nom lhe fijem caso a naide por moito que dijeram" [Maruxa]. Era algo totalmente inusitado que uma mulher tocara numa formaçom masculina "por definiçom" mas o público admiteuno; Maruxa ganhou o respecto do público e cos anos Os Rosales foi-se convertindo num grupo familiar coa incorporaçom dos filhos e posteriormente duma das filhas á formaçom.

Maruxa achegara-se também à gaita mas, como ela mesma afirma, "a gaita dava moito trabalho (...) e unha mulher tocando a gaita...". Ela era precissa para o bombo e especializou-se no canto e na percussom. Dependendo da cançom procurava poussar o bombo ao cantar e colher as cunchas ou a pandeireta.

Nom foi tarefa singela. Como o mais complicado lembra Maruxa os ensaios dos oito primeiros dias de actuaçom no pasilho da sua casa, para aprender a desfilar co bombo nas processons sem perder o paso. Lembra como o mais duro ter que ocupar-se do trabalho no fogar no espaço entre duas actuaçons.

A ajuda da mulher foi importante para que o canto tivera lucidez no grupo. "Havia uma parte femenina" [Pepe Romero].

A incorporaçom do canto obrigou a Os Rosales a estudar a afinaçom. As voces deviam afinar coas gaitas e istas entre si.

Coas gaitas em diferentes tonalidades o reto era ainda maior para adecuar o registro de Maruxa às variantes ofertadas polos instrumentos. As peças cantadas eram acompanhadas preferivelmente de gaitas em Do (a tonalidade do cantar coloca-se por riba da gaita), em Si, e mesmo em La e Re (Os Canteiros [em La e Re], As Roseiras.... apresentadas ambas em repetidas ocassions na TV nos anos 90). O maior problema daba-se co acompanhamento da gaita em Sol: "a de Sol nom me da cantar. Coa de Re moi bem. A de do moi bo cantar, fago por riba..." [Maruxa].

Maruxa dotaba às melodías compostas por Pepe de letras seleccionadas e transformadas a partir daquelas coplas que aprendera de nova. Buscava uma temática coherente em cada peça. Assím as cançons de tradiçom oral que ela aprendera moldeavam-se para tal fim. Consequentemente os temas compostos por Os Rosales sempre forom cantados em galego como opçom consciente fronte as orquestas que se nutriam dum repertório maiormente em espanhol.

"Hoje hai moitas escolas, hai bos profesores, hai moitos papeles... daquela todo era de sudar e romper ti a cabeça..."

Este trabalho realizou-se a partir de:
* Entrevista a Pepe Romero e Maruxa Miguens, por Ramom Pinheiro (15/11/00)
* Entrevista a Maruxa Miguens e Pepe Romero, por Maribel dos Anjos e Martázul (27/06/01)
* Dossier de prensa de Os Rosales
* Textos básicos de: Pinheiro, R. Clássicos da música tradicional galega
* Todo o material proporcionado por Ugia Pedreira nas aulas de canto do Conservatório de música tradicional e folque de Lalim curso 2000-2001

"Et la cantatrice chauve? / Elle se coiffe toujours de la même façon." (Ionesco)


CONSERVATORIO DE MUSICA TRADICIONAL E FOLQUE DE LALIN - 2003