Reixa against the machine

A música um conto que engaiola.
Crónica do Pichel sobre a nova estética do conservatorio lalinense, a Reixa metálica que nos rodea.

Reixa against the machine

Eliminar os ruídos deveria ser desporto nacional, todo o mundo concorrendo polo melhor jeito de isolar-nos das notas que arrepiam o nosso bem-estar. Seriam patentáveis os aparelhos de eliminação instantânea dos ruídos dos carros, dos ruídos dos discursos e dos ruídos das máquinas de destruição maciça de cartos. Mas o que é ruído depende não só de geografias e subjectividades, também da cabesinha.

A música é um conto que engaiola. Ora bem um conto tocado com escalas crescentes e decrescentes em DO venha para acima venha para abaixo é afinal um pesadelo. Os vizinhos todos eles têm certeça disto, perguntai. Sei que os meus têm certeça disto. E quando chegam às certeças chegam às ganas de assassinar ao músico do lado e os métodos possíveis de como fazê-lo, de como fazer calar a esse músico seja como for, eliminar esse músico de piano e bata de cola repasando às 7 da manhã uma só escalita, uma só.

Primeiro método: bater com punho fechado na parede. Não funciona. Segundo método: começar a gritar (método irônico). Não funciona. Terceiro método: esse CD, esse rádio herdado apoiá-lo contra a parede ponhendo Ktulu (letras com muita mensagem, muito trabalhadas). Não funciona. A escala de DO do vizinho clarinete pôde com tudo.

Mas se convertemos esse clarinete em gaitas, acordeões diatônicos, percusões, violinos, sanfonas, canto, etc. E se esse vizinho músico não vive no quarto do lado, mas vive num conservatório e são tantos vizinhos por enquanto como instrumentos, e além disso fazem música e não molestam, e fazer escalas as precisas, e não tocam à noite, e as 7 de manhã que bem se está na caminha, e odeiam o ruído como tu como eu dos motores dos carros, mas tu tens o poder para decidir quais obras se pôdem fazer arquitectónicamente nesse conservatório, e para ti esses homens e mulheres que tocam são máquinas, máquinas que tocam e ensaiam instrumentos, setenta máquinas e uma máquina de cafê, setenta números.

Então apanharas de Reixa metálica, uma reixa cúbica do mesmo tamanho que o conservatório, e imitando a Hristo mas sem segurança contralumes, ordenas que um cubo reixa metálico gris cubra de acima a abaixo o conservatório de Lalim, e que bonito o assunto (eu gosto), se há lumes que soplem os da gaita e os foles dos acordeões e que os apaguem, porque amiguinho, antes do que tudo a estética, antes do que tudo a música e antes do que tudo que os cubram a todos, reixa against the machine, esse cubo.

José Ramom Pichel.