Habemus Dadam

“Dadá é a vida sem pantufas e sem paralelas, é pró e contra a unidade e decididamente contra o futuro” dizia Tristan Tzara.

O nome de dadá que em francês quer dizer “cabalinho de madeira” é fruto do acaso ao abrir um diccionário com uma faca.

Outro artigo interesante de Rudesindo Soutelo.

O Bardo na Brêtema :: Rudesindo Soutelo
Habemus Dadam

“Dadá é a vida sem pantufas e sem paralelas, é pró e contra a unidade e decididamente contra o futuro”, porque “a arte não é séria”, dizia Tristan Tzara (1896-1963) rejeitando os valores sociais e estéticos que desembocaram na I Guerra Mundial. Um movimento antiburguês contra do aparato da arte estabelecida. O dadaísmo cria palavras pela sonoridade, quebrando as barreiras do significado,
porque o importante é o grito, o urro contra o capitalismo burguês e da total falta de perspectiva diante da guerra.

Hugo Ball, poeta místico anarquista alemão, queria realizar “coisas bonitas” no seu Cabaret Voltaire da cidade velha de Zurique, e convocou lá artistas plásticos e poetas que se encontravam exilados na Suíça por causa da guerra. Procediam dos movimentos da vanguarda europeia -expressionismo, futurismo, cubismo- e contestavam radicalmente a tudo e todos. Surgiu assim um diálogo interdisciplinar
que tirou as amarras estabelecendo uma nova forma de enxergar a expressão artística. Em 5 de Fevereiro de 1916 teve lugar o primeiro “serão” ou florescência oficial de Dadá. O nome “dada”, que em francês quer dizer cavalinho de madeira, é fruto do acaso ao abrir um dicionário com uma faca. Mas quase simultaneamente também floresce em Nova Iorque, e ao acabar a guerra e retornar os artistas aos seus países de origem, espalhou-se por toda Europa.

Junto a Ball e Tzara no grupo de Zurique estava Hans Arp, Marcel Janko, Richard Hü e Hans Richter. Também colaboraram Apollinaire, Kandinsky, Marinetti e Picasso. Francis Picabia foi o elo de ligação com o grupo de Nova Iorque -Marcel Duchamp, Man Ray, Edgar Varesse- e mais o de Barcelona -Albert Gleizes e Arthur Cravan (poeta boxeador)- e em conjunto publicavam a revista Dadá. Na Alemanha, liderados por Max Ernst, constituem-se grupos dadaístas em Berlim, Hannover e Colónia. André Breton constitui um grupo em Paris que é o germe do surrealismo. Erik Satie, que já trabalhara com Jean Cocteau no ballet “Parade”, compõe a música do ballet “Relâche” (Pausa) ideado por Picabia, e no entreacto projectava-se o filme de René Clair “Entr’acte” com Satie, Picabia e Duchamp.

A eloquente revolução fragmentária do dadaísmo, como movimento artístico, não podia durar muito e considera-se 1922 como a data de auto-dissolução, mas a sua proposta já assentara uma nova percepção do mundo que impregnou todo um século. Depois da II Guerra Mundial surgem o “New Dada” em Usamérica e o “Nouveau Réalisme” na Europa que são os frutos maduros de Dadá. Christo, Deschamps, Manzoni, Rauschenberg, Jasper Jhons, e os compositores John Cage e David Tudor que durante anos leccionam nos encontros de Darmstadt (Alemanha) às novas gerações de criadores de todo o mundo. Também a expressão Pop é filha dos postulados dadaístas e hoje a pegada de Dadá está presente em todos os âmbitos estéticos e sociais.

Em John Cage (1912-1992) confluem o misticismo Zen com o radicalismo Dadá. Em 1952, como consequência dum longo processo de experimentação com novas sonoridades tímbricas, a utilização do azar e aleatoriedade, e a tensão distensão sonora do ambiente, Cage escreve a provavelmente mais famosa e importante obra das vanguardas do século XX, 4’33”, estreada por David Tudor ao Piano, e que marca uma quebra na história da música ocidental já que a sua proposta é que o acto primordial da função musical não é fazer música senão escutá-la. A execução de 4’33” consiste em que os intérpretes permanecem durante 4 minutos e trinta e três segundos em posição estática enquanto o auditório se converte no protagonista sonoro da obra. Na Galiza deu-se por primeira vez num concerto das Juventudes Musicais de Vigo em 1973 com o guitarrista José Ramón Encinar -hoje afamado director de orquestra- e recebido com certo cepticismo pelo público, ainda que um assistente razoou publicamente que aquela música era para ser escutada pelos ouvidos da alma e não pelos do corpo. Da escola de Cage surgiram muitos movimentos como o poliartístico Fluxus ou o madrileno ZAJ que em 1967 representou um revulsivo na ancilosada sociedade franquista. E na Galiza aparecera o Quadrado de Pi, que deixo para outro artigo.

A receita poética de Tristan Tzara é esclarecedora: “Apanhe um jornal / Agarre uma tesoura / Escolha um artigo do jornal da dimensão que queira dar ao seu poema / Recorte o artigo / Depois recorte as palavras do artigo e ponha-as numa bolsa pequena / Sacuda-a suavemente / Tire cada palavra uma após da outra / Copie honestamente na ordem em que saíram da bolsa / E o poema estará pronto e semelhante a você / Ei-lo Você será um poeta original e de fascinante sensibilidade, ainda que a plebe não o compreenda”.

Habemus Dadam, ainda que um mal Bento nos corte o ar.

© 2005 by Rudesindo Soutelo
ant@soutelo.com

Nota: Os artigos publicados desde Setembro 2003 a Julho 2004 estão editados por Arte Tripharia no Corpus Musicum Gallaeciae.


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