Possível interpretação da nomenclatura de Pintos sobre a sanfona

Os termos referentes as diversas partes da sanfona não vêm acompanhadas das respectivas definições. Num intento de criar a polémica necessária que nos leve ao conhecimento do significado real de cada item proponho as que seguem, fruto mais da intuição que de qualquer método científico.

Convido-vos a que participeis com as vossas sugestões.

  • ASAS ALZAS: Alça é sinónimo de presilha como a que serve para passar o cinturão nas calças em redor da cintura. Asas são a parte pela que se pega nalguns utensílios, assim que asas alças, acho que fez referência aos apêndices da sanfona as que se amarra a correia ou correão.
  • BORDÓN: Bordão: “Corda grossa que nalguns instrumentos musicais, produz sons graves” (P.E.) Em Coromines podemos ler: 1463, “del fr. Faux-bourdon id., compuesto de faux “falso” y bourdon tono bajo en ciertos instumentos musicales, propte. Abejorro, zángano (por el zumbido de estos insectos), voz onomatopéyica. Origen parecido tiene bordona “cuerda de la guitarra”. Nas sanfonas em G fundamental do teclado produziria um som contínuo em C.
  • BORDONETA OU QUINTILLA: O sufixo -eta provem do latim -itta, vivo em palavras como pandeireta. Com tudo hoje está em uso bordoncinho. Esta corda fez uma quinta do bordão, origem da segunda acepção. Quintilha, usa-se para a forma poética de cinco versos, pelo que de empregar esta acepção e por correspondência com prima e terceira preferimos quinta.
  • CAIXONCIÑO OU SECRETIÑA: Compartimento pequeno situado na parte que toca ao músico entre o cravelhame e a tampa traseira.
  • CASTILLETE: Parece referir-se ao compartimento provido de tampa com dobradiças que protegem as cordas desde o cravelhame até a roda, cujas paredes laterais estão furadas transversalmente para ser atravessadas pelos barrotes das teclas. É uma palavra castelhana que significa “s.m. Armazón de materiales y formas diversas que sirve como soporte de algo”. Também dim. de castillo. Dado que não é palavra galega pode ser substituída por castelinho ou castelejo. Por similitude preferimos a mais comum estojo.
  • CHAVE: Esta palavra refere-se entre outras acepções aos pistões de alguns instrumentos de metal que ao preme-los permitem dar a nota desejada. Acho que na sanfona se refere as teclas que para o mesmo fim preme a mão esquerda do executante.
  • CORDAS: “s.f. Fio de tripa ou de metal para produzir sons em alguns instrumentos” (P.E.)
  • CORDOEIRO: Pintos (D.D.) no seu dicionário curiosamente não recolhe esta palavra senão cordeeiro: “Cordelero, tirante en instrumentos de cuerda”. A tradução ao castelhano mais correcta seria cordal. Em galego podemos usar a palavra estandarte, que é o nome empregado para o elemento similar na família dos violinos.
  • CORREDORES: Em quanto que corredor pode ser uma viela estreita ou um carreiro, possa que esta palavra faça referência a o espaço pelo que transitam as cordas entre os tempereiros.
  • CORREÓN: Correão: “Correia larga e grosa” (P.E.)
  • CRAVIXAS: Cravelha: “s.f. Peça com que se retesam as cordas de certos instrumentos musicais para afinação” (P.E.)
  • CRAVIXEIRO: Cravelhame: “s.m. O conjunto das cravelhas; a parte onde estão as cravelhas”. (P.E)
  • ESPECAS: Em (E) Espeque: “s.m. 1º Estaca ou pau com que se estea algunha cousa. 2º Pau que manten erguida a cabezalla do carro.” Parece fazer referência as almas e passaria a denominar a estas especificamente na sanfona.
  • FERRO DO CORDOEIRO: Nos instrumentos de corda friccionada como a sanfona ou o violino, botão ou saliente a que vai fixada por duas finas cordas o estandarte ou cordoeiro e que na sanfona forma parte do veio.
  • FOLLA DE DIAPASÓN: O diapasão no violino é uma peça, geralmente de ébano, sobre a que dedilha a mão esquerda através da que se pode desenvolver a gama completa da voz do instrumento. Na sanfona o diapasão viria dado pelo tamanho do estojo e o número de teclas que este suportara. Sobre folha lemos em (E): “s.f. (13) Cada unha das palletas, lascas ou partes delgadas en que se divide un todo. (16) Cada unha das partes que se abren e fechan nas portas, xanelas ou biombos.” Acho que a folha do diapasão pode ser a tábua do estojo, furada com o fim de que ao seu través passem as chaves.
  • GARDAPOLVOS: Guarda-pó: Forro de madeira que se põe sobre a roda para a proteger do pó.
  • PIA:
  • PORTA PONTE: Para a palavra ponte, preferimos a galego-potuguesa cavalete, que é a peça que separa o tampo superior das cordas, transmitindo o som do primeiro ao segundo para que o amplifique. Esta ponte, nas sanfonas clássicas ia sobre uma peça de madeira que impedia que fosse directamente sobre o tampo.
  • PRIMAS: As duas cordas cantantes, afinadas ao uníssono e na mesma oitava.
  • PUNTOS: Pontos, pensamos que podem ser uns ouvidos abertos nos aros da sanfona cujo uso é ainda de difícil interpretação.
  • RESINA: “s.f. Producto natural, viscoso, que se extrai de alguns vegetais (especialmente coníferas), de alto valor industrial.” (P.E.) A resina utilizada pelos músicos de instrumentos de corda friccionada tira-se do aceite de trementina e serve para oferecer resistência na fruição do arco ou roda sobre a corda.
  • RODA: Objecto circular, geralmente de nogueira, comunicada através dum eixo metálico ao veio que ao ser accionado fez mover a esta. Tem a função do arco nos instrumentos da família do violino.
  • SEGUNDA PONTE: Acaso um barrotinho de madeira que vai próximo aos primeiros tempereiros e logo da ponte principal.
  • TAMPO DE DIANTE: Tampo sobre o que vai situado o estojo e o cavalete, e menos próximo ao executante.
  • TAMPO DE TRASVEO OU AGULLA: A agulha é, além de o objecto metálico que usamos para coser, o costelame dos quartos dianteiros do gado vacum. Acho mais que possível que, neste caso seja a tábua geralmente ondulada na sanfona clássica, que une o tampo superior e inferior da mesma.
  • TECLAS OU TÉCOLAS: “s.m. Peças de madeira sobre as que se pulsa para que os tempereiros cheguem a encurtar a corda.”
  • TEMPEREIROS: Cada uma das pecinhas de madeira que a forma de tangente pulsam a corda, encurtando a longitude da mesma a diferentes alturas.
  • TERCEIRA: Corda cantante que acompanha às primas, em uníssono com esta na oitava inferior.
  • ZAPATILLA: Sapatilha: Camurça de alguns instrumentos de vento para que nas chaves não escape o sopro. É de supor que na sanfona servira para aperfeiçoar o som no roce dos tempereiros com as cordas, pudendo ser neste caso de borracha.

José Luís d. P. Orjais
(C.M.T.F.L.)

(D.D.) 2003 SANTAMARINA, ANTÓN ed. Diccionario dos dicionários.
(P.E): 1990 Dicionário da Língua Portuguesa. (Poro; Porto Editora).
(E): 1995 ALONSO ESTRAVIS, ISAAC Dicionário Sotelo Blanco da língua galega. (Compostela; Sotelo Blanco)

NORMAL: Grafia correcta.
SUBLINHADO: Grafia incorrecta.
CURSIVA: Estrangeirismo.