Un artigo de Ramom Pinheiro Almuinha

Artigo de Ramom Pinheiro Almuinha. (co-director do II Postgrado en música tradicional galega USC, director artístico de Ouvirmos S.L, profesor de Historia da música galega no CMTF)

As Viagens das agrupações galegas de estética tradicional ao continente americano antes de 1936
Publicado na Revista Etnofolk.


Em primeiro lugar cumpre destacar que a nossa intenção à hora de realizar este breve estudo é centrarmo-nos exclusivamente nos grupos e viagens artísticas realizadas antes de 1936. As viagens realizadas depois da implantação do franquismo teriam uns fins político-propagandísticos destinados a contribuir para o incipiente processo de abertura do regime já desde os anos quarenta que os diferencia no essencial dos realizados anteriormente e que seriam, em todo caso, merecedores de outro estudo específico.

As formações em que nos centraremos, se bem em certos casos não podemos mais do que oferecer certas referências testemunhais, serão por ordem cronológica de visita ao continente americano do quarteto Os Montes de Viveiro, do grupo do Gaiteiro de Ventosela , do coro ponte-vedrês Aires da Terra, do quarteto Os Maravillas de Cela Nova, dos gaiteiros de Soutelo de Montes, do Coro De Ruada de Ourense e do coro galego Anaquiños d’a Terra de Madrid. A maior parte de estas agrupações, apesar da sua estética “enxebrista”, eram grupos artísticos de renome, compostos por músicos com fortes disciplinas de ensaios que distavam em muito do clássico intérprete popular.

Todas as digressões artísticas que realizaram foram possíveis pela forte presença da emigração galega, fundamentalmente em latino-américa que demandava factores identificadores. Esta demanda favoreceu também a edição de numerosas edições discográficas de música tradicional e mesmo de outras digressões realizadas por grupos residentes na América, como o caso do gaiteiro Manuel Dopazo.

Os Montes de Viveiro

O primeiro grupo em visita artística de que temos constância é o quarteto de Viveiro, Os Montes, muitas vezes considerado erroneamente como a mesma formação que anos depois seria enormemente popular com o nome Os Montes de Lugo.

Trata-se do clássico grupo galego de entre séculos nascido num âmbito urbano e conformado por membros destacados da burguesia local, como o caso do afamado coro ponte-vedrês Aires da Terra. Faziam, em definitiva, parte da tendência europeia de regeneração da cultura popular conformada por sociedades e compiladores de folclore, concursos de instrumentos tradicionais, nascimento de disciplinas como etnologia, etnografia ou etno-musicologia etc.

Os Montes chegaram à costa cubana em 5 de Março de 1908, tão só dois dias antes da morte da destacada personalidade da cultura galega Manuel Curros Enríquez. Este facto propiciou que se pensasse neles para portarem o caixão de Curros vestidos com o traje tradicional desde Dragones até Villanueva. Nada sabemos da composição do seu repertório ou lugares de actuação.

A formação que viajou a Cuba estava composta por três músicos de Viveiro: Ramón Salaverri com a gaita, Eugenio González Madono com a caixa de rufo e Antonio Soto com o bombo. O quarto membro natural de Lugo era Juan Latorre Montes. Latorre era sobrinho e afilhado do compositor Juan Montes e dirigia na altura a Banda de música de Viveiro, da qual provavelmente provinham o resto dos integrantes d’Os Montes. Latorre considerado como um extraordinário flautista tocava, porém, o clarinete com Os Montes. De facto, a formação de quarteto com gaita e clarinete foi a predominante até aos anos vinte, quando o duo de gaitas dos Gaiteiros de Soutelo, canonizou a nova formação, legitimando-a como a mais tradicional até aos nossos dias.

Juan Míguez. O gaiteiro de Ventosela

O nome de Juan Míguez (1847-1912) Gaiteiro de Ventosela, levanta cada dia mais o interesse dos investigadores na música galega por ser um dos principais artífices em somar todo o tipo de inovações à interpretação tradicional da gaita. O seu virtuosismo junto com o submetimento às transformações musicais da época fizeram com que se especializasse em incluir no seu repertório todo o tipo de novos ritmos, como o Passodoble, a Mazurca ou o Fox-trot. Incluso teve coragem também para fazer adaptações de �zarzuelas� para a gaita.

No período de entre-séculos começa a despertar a atenção de jornalistas e escritores, como Alfonso Pérez Nieva que começam ao retratar nos seus textos.

“(…) Míguez de Ventosela es un hombre arraiano en los sesenta, con bigote blanco, ojos adormecidos y el rostro astuto. En toda su persona existe una cierta napolitana indolencia. Viste de “Pantalón” y sombrero flexible. Con respecto a su estilo no es ya el del aldeano que toca por instinto, por naturaleza, expontaneamente, como recita las leyendas aprendidas en la infancia de los labios del abuelo, con esa especie de “canto llano” de la gaita campesina. Míguez es un artista que conoce el valor de su instrumento, que lo estudió profundamente, que conoce los efectos de que es susceptible, que los manipula como un violinista de conciertos su violín. La gaita de la aldea es candorosa, la de Míguez pudiera denominarse erudita. ”

O quarteto do de Ventosela -composto pela sua gaita e clarinete, tambor e bombo- é o primeiro em chegar a terras argentinas em tournée artística. A sua apresentação levou-a a cabo no Teatro Victoria de Buenos Aires a 31 de Março de 1908, poucos dias depois de que Os Montes se tivessem estreado em Cuba. A esta actuação sucederam-se outras em distintos teatros, como o Coliseo, e particularmente no âmbito da comunidade galega. As impressões da sua actuação no Teatro Victoria foram recolhidas pelo poeta e escritor Francisco Sánchez García, que nos aproximam à carência de gravações sonoras, a uma interpretação do virtuoso gaiteiro.

“Cerré los ojos para oír. Con los ojos cerrados parécenos que, reconcentrados en nosotros mismos, escuchamos mejor, y que no perdemos una sola nota si musicalmente nos hablan… La ilusión fue completa (…) Y así he visto pasar, deslizándose ante mi vista suavemente, el caudal inagotable de soñadores y poéticos encantos, de los cuales, con justísima razón, se vanagloria Galicia de ser poseedora. Sus montañas, las gigantescas montañas gallegas; sus valles y praderas; sus huertas y jardines; sus caudalosos ríos y pequeños regatos…el rincón alegre de muchos ensueños, la patria amada, la madre querida, todo pasó, en aquel segundo de sublime lirismo, ante mí al compás de los alegres y sonoros sones de una gaita divinamente tocada… Y entonces, después de visiones tan gratas, miré al amplio escenario del Victoria, y vi que el genial Ventosela, con su inseparable compañera, deleitaba y hacía en aquellos felices instantes a miles de corazones andar el mismo camino que, quiméricamente. el mío terminaba de recorrer. Lo he visto, sí, grande, sublimemente grandiosos,, arrancando vivrantes, cadenciosas, celestiales notas al clásico instrumento que con tanta habilidad domina. Y fijándome en la tumultuosa vehemencia de que era presa el público, aclamado al laureado gaitero; fijándome en ese delirante entusiasmo que desechaba, rechazándola en absoluto, la más leve idea de fingimiento, no puede por menos que pensar para mi sayo: que extrañeza podría causarle a nadie que los franceses, en París, hayan aplaudido, laureado y hasta pagado bien los excepcionales méritos de este hombre extraordinario y admirable.”

Coro Aires d’a Terra de Ponte Vedra

O primeiro dos Coros galegos em ser fundado, também foi o primeiro em chegar a terras americanas com o seu espectáculo. Trata-se da formação ponte-vedresa Aires d�a Terra, fundada pelo seu gaiteiro e director Perfecto Feijoo em 1883. Depois de uma dilatada trajectória de trinta anos -estudada pelo investigador José Luis Calle2 – o coro empreende a sua viagem à Argentina, onde era altamente conhecido, em grande medida, por ser o responsável das primeiras gravações discográficas galegas realizadas em 1904 e que contaram com reedições para os galegos na emigração americana. O impulsor da viagem desde Argentina foi o banqueiro Fernando García3, que em anos posteriores continuaria a promover a difusão da cultura galega na Argentina organizando a exposição de arte galega celebrada em Buenos Aires em 1919.

Enquanto o coro viajava a bordo do navio holandês Gelria depois de partir do porto da Corunha a 31 de Julho de 1914, na capital Argentina preparava-se a constituição de três comissões (Administração, Artística e de Propaganda) para recebê-los constituídas para tal efeito a 15 de Agosto de 1914. Podemos destacar a presença na comissão artística do compositor Egidio Paz Hermo ou a de Demetrio Durán artista ponte-vedrês responsável de desenhar a cenografia de fundo para a actuação do coro. Paralelamente, desde as páginas do Boletim Oficial do Centro Galego informou-se regularmente à comunidade galega da próxima visita que iam receber alentando-os a participarem com a maior das motivações nas actividades em que estiver presente o coro.

“(…)los gallegos aquí residentes debemos ver en los distinguidos caballeros que forman el coro “Aires d’a Terra” de Pontevedra, una embajada de nuestra Galicia, unos aires de nuestra tierra que de ella nos vienen, y acojerlos y agasajarlos como a nuestra hidalguía y patriotismo corresponde4″

A chegada do coro a Buenos Aires produziu-se a 20 de Setembro, contando com um extraordinário recebimento por parte dos galegos da capital, entre os que se encontravam as suas mais destacadas autoridades. O seu debute realizou-se no Teatro Coliseo com um programa estruturado em três partes.

Primeira parte

“1º Alborada de Monrtes por la orquesta dirigida por Paz Hermo. 2º Salutación a los gallegos residentes en la Argentina por el Excmo. Sr. Augusto González Besada, presidente del congreso de los diputados de España, Leída por Llanderas. 3º Exhibición de películas cinematográficas de paisajes y costumbres gallegas, durante la cual la orquestra interpretó piezas galaicas.

Segunda Parte

“1º Lectura de Poesías de los mejores poetas gallegos, por Fernández Mato y por Llanderas. 2º “Meus Amores” romanza de Baldomir con letra de Salvador Golpe, cantada por el baritono Torres; “Lonxe da Terriña”, música de Montes y letra de Pereira, cantada por el tenor Iglesias, ambas piezas fueron acompañadas al piano por el maestro Vélez. 4º “Un vello Paroleiro”, monólogo de Helidoro F. Castañadaduy, recitado por Llanderas.

Terceira Parte

“1º Presentación del Coro” Aires d’a Terra” por Alfredo Vicenti, discurso leído por Fernández Mato. Seguidamente el Coro interpretó los siguientes cantos populares: “Camiño da festa” (Gaita y coro): “Alalá” recogido en la provincia de Pontevedra (Gaita y coro); “Alborada popular” (Gaita y coro), basada en una letra de Rosalía; ” Alalá de Betanzos” (gaita y coro); ” Muiñeira popular” ( gaita y coro) ; “Foliada” ( gaita y coro) y ” Muiñeira”, baile popular.”

O êxito da formação foi enorme já que um espectáculo como o que apresentaram era pela primera vez levado ao continente americano. Nunca antes se tinha presenciado um grupo coral acompanhado com instrumentos populares, vestidos com indumentaria tradicional e incluindo unicamente no seu repertório melodias galegas. De facto, a visita do coro de Feijoo marcará um antes e um depois no desenvolvimento das formações galegas na América, que a partir desse momento começarão a seguir o caminho iniciado pelos coros ponte-vedreses, se bem desde um primeiro momento se inclinaram pela harmonização dos cantos, facto descartado por Feijoo por não considerá-lo castiço.

Após sua apresentação o coro prosseguiu com a sua digressão actuando no Parque japonês de Buenos Aires e no Teatro da Comédia, sendo esta actuação auspiciada pelo Centro Galego. Da capital transladaram-se a Cordoba, iniciando uma digressão que os haveria de levar até ao Rosario de Santa Fé e Villa María. Nas suas actuações o coro contava com uma programação prévia ao seu concerto, integrada pela exibição de cintas cinematográficas de temas galegos, saudações aos galegos emigrados escritas por literatos de renome e leitura de poesias de poetas mortos e vivos. O advogado ponte-vedrês Isidoro Millán integrante do coro era o que finalmente se encarregava da apresentação da formação.

Na viagem de regresso à Galiza, o Coro Aires d’a Terra desfaz-se por motivos ainda não clarificados. A hipótese de José Luis Calle aponta para a possibilidade de que os interesses económicos afloraram na formação depois da digressão americana, facto com que de nenhuma forma comungaria Feijoo, que sempre entendeu a existência do Coro como um serviço filantrópico destinado à regeneração e divulgação do folclore musical galego e não com fins mercantilistas de nenhum tipo. A dissolução do coro não motivou o fim das actividades de Perfecto Feijoo, que se manteve activo até à sua morte a 10 de Junho de 1935. De facto, a seguir à sua chegada, apesar das particulares circunstâncias que rodeavam Feijoo na altura, este envia uma carta ao presidente do Centro Galego onde mais uma vez se declara um trabalhador em favor da dignificação da música galega.

“Pontevedra 10 de diciembre 1914
Sr. presidente del centro gallego de B. Aires

“Mi ilutre señor y paisano: Ya de regreso en esta tierra, me complazco en hacer desfilar por mi memomoria los más gratos recuerdos que conservo de mi reciente expedición artística á esa tierra argentina. Entre ellos se destaca muy señaladamente el de la paternal acogida por esa benemérita Sociedad de su digna presidencia ha dispensado a mis trabajos modestísimos pero llenos de sincero entusiasmo, en favor del renacimeiento y dignificación del antiguo arte musical gallego.

De los agasajos dispensados con tanta generosidad como cariño y de los esfuerzos realizados por ese centro en beneficio del mejor éxito, conservo un recuerdo imborrable y que perdurará en mi espiritu como ha de perdurar de igual modo el sentimiento de mi íntimo reconocimeiento y el de mi más fervorosa gratitud.

Me permito rogar a Vd., como un favor más, me dispense el de hacerme interprete de estas expresiones de agradecimiento, para ante todos y cada uno de los socios del centro gallego, que es en esa hospitalaria tierra americana, honor de esta tan amada region gallega.
Con la mayor consideración y respeto, le saluda y envia el testimonio de su simpatía este paisano y servidor que le besa las manos. 5″

Os Maravillas de Cartelhe (Celanova)

Os Maravillas são uma formação genuinamente tradicional, nascida num contexto rural. Uma formação fundamentalmente de carácter familiar formada em torno ao ano 1910 com a clássica instrumentação na altura de gaita, clarinete e duo de percussão. Devido ao triunfo da estética castiça dos Gaiteiros de Soutelo nos anos vinte Os Maravillas são um dos primeiros grupos em “se reciclar” e assumir a nova estética musical do duo de gaitas, como a própria.

Até fins dos anos vinte as suas actuações parece que discorreram fundamentalmente num âmbito geográfico mais bem local ou comarcal, se bem é particularmente destacável uma viagem realizada a Madrid, onde a gaiteira e directora do grupo Áurea Fernández foi designada como Rainha da gaita galega. O facto de estar este grupo liderado por uma mulher surpreende, em grande medida, já que a presença feminina neste tipo de formações era quase nula na altura, e mais exercendo a figura de directora da formação.

A sua viagem à América será orientada mais uma vez à Argentina, se bem esta será a actuação que menos desperte o interesse entre a comunidade galega. A visita d’Os Maravillas não gerou as grandes reportagens que ocasionaram na altura Os gaiteiros de Soutelo ou o Coro De Ruada. Não ocuparam as capas dos jornais da emigração, não se sucederam os clamorosos recebimentos, nem as mensagens oficiais, nem os poemas de louvo e até resulta complicado encontrar alguma pequena resenha na imprensa da comunidade galega.

As actuações d’Os Maravillas em Argentina desenvolveram-se 1929, pouco antes da chegada d’Os Soutelos a Buenos Aires e as escassas referências documentais de que dispomos centram em Áurea a sua atenção. Da mesma forma, destaca-se o número de canto do alalá com gaita e a exibição de baile.

“Se trata de un espectáculo magnífico, emocional y bello, el de esta moza celta, terciando sobre sus hombros y acariciando sobre su pecho, el divino y milenario instrumento lírico de la raza; el instrumento que canta al sol en la jocunda alborada y que llora el dolor de la ausencia y de la partida (….) Canta maravillosamente alalás y pispuntean la tradicional muiñeira con sus múltiples aspectos de montaña, valle y orilla mar6”

As poucas e confusas informações sobre os membros do grupo após a viagem à Argentina induzem a considerar que Áurea Rodríguez não voltou à Galiza, se bem nos anos posteriores também não aparecerá nas páginas de sociedade dos jornais da emigração. Também há quem a situe no ano 1945 em Venezuela, sendo este o último indício que há sobre a mulher gaiteira mais lendária do século XX. Por outro lado, um dos irmãos de Áurea e membro d’Os Maravillas, Felisindo Rodríguez regressa da Argentina e inicia a gestação de uma nova formação que desenvolverá a sua actividade até à Guerra Civil com o nome de Irmãos Gaiteiros de Muntiam. Este quarteto de gaita e clarinete com duo de percussão estava formado por membros da Banda de música de Manchica.

Os gaiteiros de Soutelo

Em 1929 Buenos Aires será novamente a cidade americana que receba uma agrupação galega, Os gaiteiros de Soutelo. Esta formação que com a passagem do tempo veria confundir a sua trajectória com a lenda, encontrava-se nesse momento no período de maior esplendor na Galiza. Vinha de realizar o ano anterior uma série de gravações discográficas para a Casa Regal (as primeiras realizadas por um quarteto de gaitas), e a sua actividade era seguida com atenção pela imprensa e o mundo cultural galego, também na emigração.

Os gaiteiros de Soutelo embarcaram no navio Sierra Córdoba a 1 de Dezembro no porto de Vigo, cidade em que realizaram algum concerto prévio a sua partida. A formação estava integrada pelos irmãos Avelino Cachafeiro e Víctor Castor Cachafeiro com as gaitas, e Bautista Cachafeiro com o tambor. O até então bombeiro do grupo, Fermim Cachafeiro, pai dos três irmãos, foi substituído por um vizinho de Soutelo conhecido como “Ferro”, o qual se manteria vinculado à formação nos anos seguintes. Para a viagem à América Os gaiteiros de Soutelo somaram ao seu habitual repertório -conhecido em parte graças as gravações discográficas algumas melodias do repertório do Coro da Sociedade Artística de Ponte-Vedra com que Avelino colaborara em anos anteriores. A todo isto cumpre somar também os decorados do cenógrafo Camilo Díaz Baliño e de Castelao, que representavam respectivamente a ria de Marim e um Pinheiral.

Após a chegada e recebimento a Buenos Aires a 20 de Dezembro iniciaram os seus concertos apresentando-se publicamente no Teatro Avenida. A atenção suscitada pelo grupo concretizou-se em multidão de artigos e mesmo portadas de revistas da colectividade galega.

“La amplia sala del teatro Avenida viene siendo todos estos días un templo erigido a la música popular gallega, a donde acuden en peregrinación emocional, con amorosa unción, todos los conterráneos radicados en Buenos aires, y nuestros amigos los argentinos, que con nosotros saben gustar exquisiteces del folklore gallego7 “

À margem das resenhas das suas actuações, foram escritas também poemas, loas e exaltações por destacadas figuras como Cabanillas ou Manuel Lustres Rivas. Um fragmento escrito por M. García Barros para a revista Céltiga pode resultar-nos suficientemente ilustrativo

“Os musulmáns non queren morrer sin haber ido siquera unha ves á Meca. Os nosos antergos non querían morrer sin ir siquera unha ves ó San Andrés de Teixido. Os galegos d’oxe, de todal-as bandas, non deben de morrer sin haber ouído unha ves siquera ós gaiteiros de Soutelo8”.

Durante a sua estância na capital argentina realizaram sessões diárias, destacando-se ademais a sua participação na representação da ópera “Cantuxa” do Maestro Baudot, pela companhia do Avenida. No segundo acto os gaiteiros desenvolveram números de gaita acompanhados de bailes, em combinação com a orquestra e os actores. Acabadas as representações no Avenida, Os gaiteiros de Soutelo realizaram dois concertos no Teatro do centro galego de Avellaneda realizadas a dia 28 de Dezembro em sessões consecutivas de tarde e noite.

Após este primeiro bloco de actuações na Argentina o grupo desloca-se até à vizinha Uruguai, onde a enorme presença da comunidade galega possibilita que Os Soutelos realizem várias funções seguidas no Teatro Artigas de Montevideu.

Novamente na Argentina e depois de voltar a Buenos Aires, os Cachafeiro iniciam uma digressão por populações do interior da república. A primeira de este terceiro bloco de actuações teria lugar na cidade de Rosario por iniciativa do Centro Gallego e do Hogar Gallego sociedades que nomearam os de Soutelo como hóspedes de honra. A apresentação do grupo realizou-se no Teatro Odeón, sendo acompanhados na programação pela cantante Esperanza García, que interpretou alalás galegos e do actor e conta contos. Gumersindo Vázquez que levou a cena os monólogos cómicos, “O vello paroleiro” e “A fonte do demo” de Labarta Pose e “Os figos” do Tío Anxelo de Rodriguez Díaz.

Depois de Rosario passaram a actuar em Córdoba novamente patrocinados pela comunidade galega. As actuações desenvolvidas, um total de seis, levaram-se a cabo no Real Cine Teatro de Córdoba. Finalmente e aproveitando a sua presença em Córdoba, foram convidados pelos empresários galegos Daparte a recorrer o interior da serra em automóvel até à localidade de Cruz del Eje. Uma vez lá organizou-se uma única função no salão do Teatro da Associação “España” com que Os Soutelos se despediram do público argentino.

A viagem d’Os Gaiteiros de Soutelo à América latina foi um elemento fundamental que contribuiu a fazer um mito do grupo e muito fundamentalmente ao seu líder, Avelino Cachafeiro. Os anos posteriores à sua viagem americana serão os do reconhecimento generalizado sendo chamados desde toda a geografia galega e mesmo desde outros pontos da Península.

Coro De Ruada de Ourense

A viagem do Coro Galego De Ruada de Ourense a latino-américa teve lugar em 1931, sendo possivelmente a de maior dimensão das realizadas por uma agrupação galega na época. O extraordinário momento de popularidade que estavam a viver os coros galegos na altura tinha possibilitado a edição de numerosas gravações discográficas e tournées artísticas por toda a Península. Os espectáculos destas formações entre as quais podemos destacar Cántigas da Terra da Corunha , Toxos e froles de Ferrol ou Cantigas e Agarimos de Compostela, já não eram as representações genuínas às quais aspirava Perfecto Feijoo; eram espectáculos que conjugavam encenações de cantos populares, cuidadas harmonizações dos directores, representações teatrais, números de baile, assim como outras disciplinas artísticas. De Ruada considerada na altura como uma das grandes formações corais da Galiza contava com a atenção das mais altas personalidades políticas e culturais do momento assim como com o favor do público.

Como passo prévio à digressão americana, o coro realizou actuações por diversos pontos do interior da Galiza durante o ano 1930, fazendo a finais de ano a apresentação do cartaz comemorativo da viagem realizada por Camilo Díaz Baliño.

Nos primeiros meses de 1931, anteriores à partida a directiva do coro elaborou um regulamento em que se estipulavam os pormenores do proceder, tanto dos coristas e directivos quanto das pessoas convidadas que haviam de viajar acompanhando o Coro. À margem e para fazermo-nos uma ideia mais precisa da relevância da viagem de De Ruada, faz falta destacar que o Coro mandou elaborar um luxuoso traje tradicional para oferecer à filha do presidente da republica Argentina Elena Uriburu, que finalmente seria entregado por uma comissão do Coro acompanhada de uns directivos do Centro Galego.

Mesmo sendo novamente a Argentina o principal objectivo na viagem, De Ruada embarca em Vigo, a 19 de Março de 1931 a bordo do Highland Prince, de bandeira inglesa, rumo ao Rio de Janeiro, onde realizariam uma primeira apresentação. A expedição – portadora de mensagens oficiais de instituições e presidentes de câmaras municipais- estava integrada pelo redactor do diário ourensão La Zarpa Salvador García Bodaño, o cenógrafo Camilio Díaz Baliño, o director Daniel González, os gaiteiros Virgilio Fernández e Luis González, os percussionistas Antonio Varela e Vicente Juzgado e um corpo de vinte e sete vozes, seis actores e dois apontadores, alguns dos quais realizavam diferentes funções.

Cumpre destacar que à América o coro levou a encenação dos cantos populares, ou como também se lhe chamou na altura a Canção vista. Este tipo de espectáculo que posteriormente desenvolveriam outros coros foi apresentado inicialmente pelo director do coro Daniel González e pelo cenógrafo Camilio Díaz Baliño. No espectáculo conjugavam-se distintos elementos como os cantos populares, as harmonizações, as representações teatrais, os decorados, a iluminação ou a dança. O próprio González exprimia-o da seguinte forma.

“La nueva modalidad que ahora iniciamos, es una cosa definitiva dentro del arte escénico musical gallego. Es lo popular dentro de lo más artístico posible. El alalá, foliada, ect. armonizado, presentando la escena que lo origina con un decorado apropiado.9”

A chegada a Buenos Aires produz-se em 27 de Março de 1931. Depois de ser trasladados ao Centro Galego são objecto de uma recepção em que se intercambiaram presentes, recebendo da Unión Orensana uma gravata para a bandeira do coro custeada por subscrição popular. Também e destacável que comemorando a chegada do coro a Editorial musical hispano-americana dirigida pelo compositor Cauvilla Prim fez a sua apresentação pública com a edição do Hino galego de Pondal e Veiga.

A apresentação em Buenos Aires teria lugar a 1º de Abril no mesmo cenário onde já antes tinham triunfado outros artistas galegos, o Teatro Avenida, onde simultaneamente Camilio Díaz Baliño apresentava a sua obra plástica no vestíbulo. Este concerto contou com a assistência do presidente da República Argentina o Tenente General Uriburu, o embaixador de Espanha Alfonso Davila, o cônsul geral de Espanha José Buigas, o intendente municipal Sr Guerrico, as autoridades do Centro Gallego e outras personalidades.

A actuação iniciou-se com o canto do Hino Argentino e a Marcha Real Espanhola por parte do coro, acompanhado da Banda municipal. Posteriormente o advogado e jornalista Salvador García Bodaño pronunciou umas palavras de saudação, contestadas por Neira Vidal, secretário do Centro Galego, finalmente para dar por apresentado o acto o Coro cantou o Hino galego. Durante a presença de De Ruada na Argentina sucederam-se as actuações contando com um amplo seguimento tanto dos meios da comunidade galega, que se comprometeram como nunca na promoção dos ourensãos assim como dos generalistas como podemos mostrar com umas notas do jornal La Nación.

“Una exposición del opulento caudal folklórico de Galicia ha traído hasta nosotros la Agrupación Artística Coro de Ruada de Orense, que acaba de presentarse en el Teatro Avenida con el más expresivo áxito. Es ésta una satisfación del esfuerzo de un grupo de artistas regionales continuadores de la obra de investigación y de compilación de los músicos gallegos que en una labor animosa que mantenían su purezado origen los motivos y las bases para reconstruir el cancionero nativo. Así como del romance de ciegos que prolongara la tradición juglaresca pudo el historiador extraer la materia para narrar las gloriosas epopeyas de la raza del fondo de las campiñas, de los pueblos de la costa y la montaña se recogieron y armonizaron las canciones, haciéndolas resurgir en la riqueza de sus matices y melodías.”

“El coro De ruada, que nos visita , constituye en este sentido una prueba valiosa de las tendencias modernas que aspiram a la dramatización y escenificación, su espiritualidad y su fuerza sentimental adquieran el vuelo sugerente en la atmosfera propicia, en el cuadro plástico que vigorice su esencia rítmica y en la ilustración escénica que acrezca sus contenidos de poesia”

O 10 de Maio de 1931, foram despedidos por directivos e sócios dos centros galegos, os membros do coro De Ruada com um banquete no salão do centro de Almaceneros, em que se sucederam os discursos dos directivos como era norma.

A última função de que temos testemunho foi a realizada no Teatro Avenida. Tratou-se de uma função extraordinária intitulada �Homenaje a Galicia�, organizada pela revista Céltiga a 12 de Maio. O programa recolheu o mais destacado do repertório levado por De Ruada a América.

Primeira parte

“Himno gallego, de P. Veiga
Disetación por el periodista y escritor gallego. S. Garcia Bodaño.
Cantos polifónicos
“Camiña Don Sancho”.- Romance del siglo XVI. Armonización del padre Luis María Fernández.
“Negra Sombra”.-Melodia gallega. Musica del maestro J.Montes
“E quer que lle quer.”- Armonizacion del Maestro Mauricio Farto
“Un home de sorte”, por el popular cuentista Xulio Borrajo
Cantos populares
“Espadeladas” (desafio) Escena coral gallega
“Foliada de Entrimo”.- “Alalá de Cerdedo”.- “Trullada de Lalín”.- “Canto das Curuxeiras”. …

Segunda parte

“La Coruña
“Canto do mar” (alalá). Escena coral gallega. Armonización del director
“O polo”.-(conto) por Xulio Borrajo
“Canto de Chirimias”.- Escena coral gallega en la catedral de Santiago de Compostela. Amonización del director
“O cañon” (conto) por Xulio Borrajo

Orense
Alalá (con decorado alegorico) Coro mixto a quatro voces. Armonización del director del coro
“A rifa” (conto) por Xulio Borrajo
“Canto de Vendima”.- Escena coral gallega.- Armonización del director del coro�

Terceira parte

“Lugo
Alalá (con decorado alegórico) Coro mixto a cuatro voces. Armonización del director
“Os tigres” (conto) por Xulio Borrajo
“Canto de berce”.- Escena coral gallega. Armonización del director
“As ánimas” (conto) por Xulio Borrajo

PonteVedra
Alalá (con decorado alegórico) Coro mixto a cuatro voces. Armonización del director
“O Héroe” (conto) por Xulio Borrajo
“Canto de malla�.- Escena coral gallega. Armonización del director
“Cipriano” (conto) por Xulio Borrajo
Escena final: Alborada e muiñeira.- Gaitas , coros, bailarines.�

Após um total de 96 festivais o Coro abandona Argentina para se dirigir ao Uruguai. Esta segunda escala da sua viagem prolongou-se de 16 de Maio até ao 5 de Junho, realizando, nesse período de tempo, um total de 42 festivais. Depois, o coro realizaria a sua última escala no Brasil, onde debutaria no Theatro Coliseu Santista na cidade de Santos. A estância prolongar-se-ia até completar um total de 22 actuações. No Brasil, De Ruada embarcaria no mesmo navio que quatro meses antes o tinha levado à América para regressar à Galiza. O recebimento do Coro em Ourense foi multitudinário e entusiasta.

Coro Anaquiños d’a Terra de Madrid

A última viagem de que nos ocuparemos será a realizada pela agupação coral Anaquiños d�a Terra, nascida no seio da comunidade galega afincada em Madrid em 1931. O modelo de formação criado foi uma cópia dos coros galegos do momento, inclinando-se desde um primeiro momento pelos arranjos polifónicos à hora de interpretar os cantos populares. Graças à relação com os coros da Galiza forneceu-se rapidamente de um repertório selecto, que junto com a boa qualidade da formação nos primeiros anos da sua existência propiciou que fosse solicitada a sua presença na exposição mundial de Chicago de 1934.

As escassas informações que podemos aportar da viagem de Anaquiños d’a Terra remitem-nos à solicitude de colaboração ao Coro De Ruada de Ourense para afrontar com êxito a digressão pela Norte-América que os haveria de guiar por diferentes cidades dos E.U.A. como Nova Iorque ou Chicago. De Ruada cedeu à agrupação madrilena o gaiteiro Virgilio Fernandez, os coristas Jaime Montes, Julio Borrajo, Manuel Alonso, Braulio Iglesias e Elipidio Cancela e as coristas Filo Fernández, Amelia Guede e Virginia López. Esta viagem destaca-se por ser a primeira realizada por uma formação galega dedicada a interpretação do repertório tradicional aos EUA.

Coda

Ademais das já apresentadas outra formação chegou a terras americanas: Os trintas de Trives. Este grupo considerado como um dos mais destacados da primeira metade de século teria actuado em Cuba, Argentina e Brasil segundo se desprende de uma informação publicada no segundo número do Anuário da gaita (1987) publicado pola Escola Provincial de gaitas da Deputação de Ourense. O citado artigo, o qual não aparece assinado, comenta a sua presença em América sem dar uma referência cronológica ou de outra ordem. Ante a carência pela nossa parte de maior informação ao respeito limitamo-nos a recolher o fragmento textual do artigo arriba citado.

“A súa fama chegou alén dos mares, actuando, asemade, na Habana, Bos Aires e Rio de Xaneiro. Cómpre destacar que a presencia do cuarteto era sempre impecable, sen presunción nen vanidade”

Antes de dar por acabada esta crónica gostaríamos de lembrar toda uma série de artistas galegos que, se bem não centrados na interpretação de repertório tradicional, recorreram diferentes pontos da geografia americana com as suas diversas interpretações. A relação que oferecemos em nenhum caso pretende ser exaustiva, mas antes ilustrativa do alto nível alcançado pelos artistas galegos e pelas fortes relações existentes entre a Galiza e o continente Americano, fundamentalmente a Argentina no primeiro terço de século.

Carolina Otero, “A bella Otero”, chegou a Buenos Aires em 1906 actuando no Nacional Corrientes com a pantomima lírica “Reve d’oinum”. A digressão levou-a também ao Uruguai e ao Brasil voltando posteriormente ao Teatro Casino em Buenos Aires. O petiz pianista de Betanços José Rodríguez Arriola (Pepito Arriola) debutou em 1912 no Teatro da Ópera de Buenos Aires. Em 1918 actuará a soprano madrilenho-compostelana Ángeles Ottein, quem voltaria várias vezes na década de vinte. A diva Ofelia Nieto, irmã de Ángeles, actou, por sua vez, em Buenos Aires em 1922. A também soprano, Mary Isaura Villaoz, actuou em 1924 sob a direcção do Maestro Vives no Teatro Victoria da capital argentina e no 1925 no Teatro Nacional d�A Havana (Cuba). No mesmo ano também visita Buenos Aires o violinista ourensão José R. Outumuro como integrante do “Quinteto Hispania”. O violinista Ponte-vedrês Manolo Quiroga debuta no Teatro Odeón de Buenos Aires em 1926, finalmente em 1934 a meio-soprano Matilde Vázquez, natural de Cambados, também realiza uma digressão por terras sul-americanas.

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