Reflexões sobre um livro de Josep Marti

Reflexões arredor do livro El folclorismo, uso y abuso de la tradición, de Josep Martí i Pérez. Artigo publicado na revista Enclave, nº 9, Inverno 2002.


Desde que em 1846 William John Thoms (1803-1885) propõe o termo folclore na carta enviada à revista Ateneum, a definição consequente mudou muito. Estes câmbios não só têm a ver com os avanços científicos no conhecimento da disciplina, mas também com as transformações acontecidas na sociedade. O livro de Josep Martí (Barcelona, 1954) oferece alguma das características do «novo folclore», o folclore duma sociedade com uma realidade muito diferente para a qual Thoms criou o termo. Na altura, estava-se a dar categoria de disciplina de estudo ao que representava, sem dúvida, mais um sintoma do grande avanço que se estava a produzir na Europa na queda dos regimes absolutistas, do advento das ideologias liberais e democráticas. O «descoberta do povo», usando a frase célebre de Peter Burke, não seria possível sem esta mudança na mentalidade que levou os ilustrados da época a visitar as moradas das classes mais desfavorecidas para conhecer a sua cultura. Portanto, o facto do nascimento do folclore está intimamente relacionado com o da história política do Ocidente. A «descoberta», mesmo nesse momento e não noutro, fez com que de súbito, um fotograma do dilatado filme da nossa cultura popular se fossilizasse e ficasse como o cânone do autenticamente nosso. Assim, o trajo tradicional galego, não é o dos camponeses do s.XII, senão o de polainas e monteiras do tempo em que se fez o corte entre o autêntico e o corrompido. A par do movimento ilustrado, e quiçá misturado com ele, está o movimento romântico, que a raiz dos estudos sobre o passado de Europa, a revisão dos velhos documentos, das velhas crónicas, chegam a conclusão de a história não ser sempre como no-la contavam e daqui as reivindicações nacionalistas, só há um passo.

É neste contexto sócio-político que nasce o que Josep Martí chama folclorismo e que define como «el interés que siente nuestra actual sociedad por la denominada cultura o .» Acrescenta, aliás, que o conceito de folclorismo «presupone, pues, la existencia de una conciencia de tradición, su valoración positiva a priori y una intencionalidad concreta en cuanto al uso que se quiere dar a esta tradición.»

Como víamos acima entendo que esta tomada de consciência da tradição foi uma conquista importante por parte do ser humano na procura da Liberdade, entendida como um fim utópico face ao qual estamos sempre a dar passos. Esta consciência da tradição focalizou a olhada num sector da população com umas necessidades básicas sem cobrir e numa sociedade que se urbanizava e industrializava tornando aos informantes camponeses em verdadeiros survivals em processo de desaparecimento. Como eles guardavam o maravilhoso tesouro do que se cria a essência da pátria, qualquer coisa que de eles partisse converter-se-ia em elemento a proteger. Josep Martí para melhor explicar o conceito de folclorismo divide o mesmo em três níveis que são:

-nível das ideias,
-nível do produto e
-actualização que «en un lugar y momento determinado se hace de aquel producto tradicional.»

O autor catalão diz que o folclorismo «como fenómeno sociocultural, no se puede entender sin el trabajo y las ideas de los primeros estudiosos del folklore.» Logicamente desde os tempos em que Chopin incluía nas suas obras «polcas» e «cracovianas» até os nossos dias não se pode compreender as reivindicações das nações sem estado sem a lealdade à cultura popular vernácula. Quem sabe se a obra de Chopin não seria completamente diferente a não ter acontecido a ocupação russa de Polónia e a posterior Revolução independentista dos anos 30. Na Galiza, nacionalismo e folclore têm uma vida em comum desde a sua origem, nas diferentes fases de provincianismo, regionalismo, etc.

Murguia, tantas vezes criticado pelo seu celtismo e mesmo pela sua manipulação dos dados históricos, incluiu na primeira edição da História da Galiza uma colectânea de recolhas harmonizadas para piano por Marcial Valladares, e possível que esta seja a primeira vez que se publicam objectos deste tipo na nossa terra. Portanto, juntamente com mistificações e tópicos com pouca base científica, os precursores aportaram documentos de grande valor não apenas pelo seu carácter fundacional mais ainda pelo seu valor em si próprio. Isto torna urgente a realização de estudos historiográficos escassíssimos no Estado Espanhol, inexistentes na Galiza.

Fica claro pois as características do folclorismo, mas então, o que é o folclore?
Josep Martí, nas Actas do Feito Diferencial Galego diz-nos que uma das acepções clássicas para o termo «folclore» é a daquela disciplina que focaliza a sua actividade no estúdio da denominada «cultura tradicional», segundo perspectivas predominantemente etnográficas. A diferença entre ambos os termos seria que «o folclore, como ciencia, non debería ser senón a exploración metódica e sistemática dun ámbito de coñecemento, mentres que o folclorismo é máis ben unha sensibilidade, un feeling social cara ó mundo das tradicións.» Definir, como faz Martí, o folclore como uma ciência, como uma disciplina académica, pode ser um tanto contraditório. Parece óbvio que se o folclorismo traz consigo uma série de características (acima assinaladas) o folclore diferenciar-se-á deste pela carência das mesmas. Fundamentalmente, e em resumo, a diferença estaria na consciência ou tradição. O facto de existir ou não um centro de investigação do folclore obedece já de cheio ao que Martí chama folclorismo. A consciência de tradição, a avaliação positiva a priori, a manipulação posterior, são as razões que fizeram que Tylor obtivesse a primeira cátedra de antropologia cultural em Oxford (1884), e, com certeza, a ausência destas sensibilidades são as que fazem que na Galiza não tenhamos de faculdades de Antropologia ou Musicologia hoje em dia. Talvez houvesse que começar a pensar que o folclore está morto, pois as características que se davam na altura em que se inventou o termo hoje não ocorrem ou ocorrem outras novas. Luis Díaz Viana dizia há alguns anos: «de acuerdo con Alan Dundes y otros estudiosos de la Escuela Norteaméricana del folKlore, existe tambiém un folklore actual -criado ahora mismo- y un folklore que ya no se transmite sólo por via oral (casi nunca fue así por otra parte), sino que está siendo transmitido através de las fotocopias y de otras tecnologías del presente»
Quiçá, numa actitude um tanto provocativa pela minha parte, pudesse-mos concluir com que o folclore está morto. Viva o folclorismo!

José Luís d. P. Orjais (C.M.T.F.L.)