A pandeireta, pandeiro e adufe.

Reflexões sobre a historia e o uso da pandeireta e o adufe.
Artigo publicado no nº 13 da revista Raigame, Maio de 2001.

ORGANOLOGIA.
Pandeireta, pandeiro ou adufe.

Hornbostel e Sachs basearam-se no modo como os instrumentos produzem o som para classificá-los em quatro grupos básicos: idiofones, membranofones, cordofones e aerofones. Os dois primeiros constituem o grupo que comummente chamamos percussão.

A pandeireta define-se como um instrumento unimembranofone de percussão direita. Dado que o aro tem ferrenhas que ao tocar produzem som, a pandeireta poder-se-ia incluir também nos idiofones de agitamento.

O pandeiro é um instrumento bimembranofone de percussão direita.
Um dos primeiros vestígios para fazer uma breve história destes dois instrumentos encontramo-la nos estudos etimológicos:

Antônio Geraldo da Cunha diz que o termo provém do castelhano panderete e que aparece no sec.XVI na forma pâdereta.

No castelhano documenta-se pela primeira vez em 1330 no Libro del Buen Amor com o sufixo moçárabe -ete:

“Dulce caño entero, sal com el panderete
com sonajas de açofar façem dulçe sonete”

Este dado, além de ser o primeiro testemunho, também é importante pela informação que dá sobre o material com que se elaboravam as ferrenhas (açofar = latão).

Em 1582 segundo documento apresentado por José Figueira Valverde, num festejo do Córpus em Compostela, saía em procissão a “Cofradia de los tecelanes, con su danza de veinte mozas, con sus panderetes y adufes, muy bien compuestas”.

Contudo nos séculos XVI e XVII o nome mais comum do instrumento deveu ser ferrenhas. Baseamos isto em documentos importantes:

  • Em Notas Viejas Galicianas podemos ler contratos que se fazem a ferrenheiros em Noia a 19 de Junho de 1579 e em Betanços a 19 de Outubro de 1624, 27 de Maio de 1644 e 9 de Junho de 1645.
  • Nos vilancicos galegos, usa-se frequentemente ferrenhas e não é até quase 1800 que se empregará pandeireta (sufixo -eta).

Ainda em Pintos podemos ler em A Gaita Gallega:

E mulheres que cantando
E castanholas mexendo
Se espotricam com as ferrenhas
Repenicam o pandeiro.

Ferrenhas era uma metonímia de pandeireta, nomeando a parte pelo todo. Embora a definição que de ferrenhas nos proporciona Inzenga não pareça corroborar isto: “usam um género de instrumento acústico. Chamado pelos galegos ferrenhas e em Castela sonajas, muito parecido ao sistro que usavam os sacerdotes de Isis”

O primeiro documento que o dicionário Vox dá de pandeireta (sufixo -eta) é dum romance de Juan Meléndez Valdés (1754-1817)

…y cual em medio de todos
repica la pandereta.

Também nos diz (o dicionário Vox) que a Real Academia Espanhola não incorpora o termo até 1884.

Na Galiza a primeira referência que encontramos é em Castro de Neira (Mondonhedo 1771-1816) quem num vilancico infelizmente sem datar empregara já o termo em -eta.

Depois de fazer-lhe a vénia
A gaita podes sacar
E nosoutros pandeiretas
Para foliada começar.

Curiosamente na altura há a variante:

Depois de ver ao menino
A gaita podes tocar
E nosoutros as ferrenhas
Para logo a festa começar.

Quanto à iconologia, a mais antiga na Galiza haverá que a buscar no cancioneiro de Ajuda.

Neste pequeno estudo histórico não nos é possível aprofundar questões de tipo morfológico, em modos de interpretação, aprendizagem, etc. Só é importante dizer que em toda a iconografia vista, até a mais antiga, nunca a mulher ou o homem toca com punho, mas com a mão aberta.

Coromines data pela primeira vez a palavra pandeiro em 1335. Diz que em fontes moçárabes se encontra frequentemente com a forma pandáir. Deriva-a do latim tardio PANDORIUM, e esta do grego pandurion, pandûra: “espécie de alaúde de três cordas”.

Se a procurarmos no português, Da Cunha diz-nos que vem do castelhano pandero, com a mesma etimologia que a de Coromines, e documenta-o no XVI.
A fonte castelhana encontra-se no Arcipreste de Fita c.1283 – c.1350);

Las triperas le acogen tañendo sus panderos
Caçadores de dote recorrem los oteros.
Libro de Buen Amor

A fonte portuguesa talvez seja Gil Vicente:

Em cada casa pandeiro
A gaita em cada palheiro
A cada porta um terreiro,
Cada aldeia dez folias.
Cada casa atabaqueiro
Tambor em cada moinho…

Adufe é uma palavra de possível origem árabe, dull, e que na General Estoria, s.XIII, aparece como adufle.
Também no século XIII Martim de Ginzo cantava:

A do muy bom parecer
Mandou aduffe tanger
Louçana de amores moyreu (…)

Santo Isídoro, nas etimologias nomeia um instrumento chamado pandurio e na Bíblia (Éxodo 15, 20; livro de Samuel, I, 18, 7, Juízes, 11, 34) outro chamado tôph.

A iconografia mais antiga na Galiza vemo-la no tímpano da Igreja de São Miguel do Monte (Serra do Faro) em Chantada, s.XII.

“Na parte esquerda há um homem sentado no que parece ser um leão deitado. Este homem está tangendo uma viola ou rabel. À sua direita há uma mulher a dançar e tocando as castanholas, fazendo uma contorção exagerada do corpo. Por cima deles, devido à adaptação das figuras ao espaço encontra-se um homem tocando o pandeiro quadrado”. A grileira.

APÊNDICE

Em muitos trabalhos sobre a pandeireta e o pandeiro diz-se que os dois são exclusivamente instrumentos musicais femininos. Isto historicamente não é assim. Basta ver os contratos dos ferrenheiros ou o tímpano de São Miguel do Monte, onde um homem toca o adufe.

Para quem quiser fazer um trabalho sobre este aspecto em concreto quero fazer algumas reflexões.

Possivelmente é a gaita o instrumento mais sexista pois não disponho de dados de mulheres gaiteiras antes da época contemporânea. O violino ou a sanfona são também principalmente instrumentos para homens, mas há documentos contra; em duas fotografias sem data (princípios de século) do fascículo nº 8 da História da literatura galega de “A Nossa Terra”, vêem-se duas violinistas cegas, uma delas de Mondonhedo. Também numa gravura de Pradilha (s. XIX) bem conhecida, vê-se uma mulher com os olhos fechados (cega?) tocando a sanfona, ante um grupo que come e bebe vinho por malga. Ainda que esta última gravura possa ser fruto da inventiva do Pradilha,está claro que o século XIX com períodos liberais, a chegada do progresso e a desamortização foram relaxando os costumes e as mulheres puderam dedicar-se a ofícios até então proibidos. Além disso, foi o século onde começaram as grandes vagas migratórias e muitas mulheres ficaram sós com os seus homens no ultramar pelo trabalho ou pelas guerras.

Antes disso parece haver uma presença pública da pandeireta e o adufe, e outra privada ou doméstica. As mulheres tocam a pandeira nas “fiadas e outros oficíos da noite nas suas casas”, enquanto o homem ganha dinheiro e assina contratos.

Em 1782 o cónego, dignidade de Cardeal Maior da S.M.I. de Santiago, D. Andrés Sobrino Taboada, fez ao pároco de Saiar a seguinte prevenção, que mostra às claras qual era o espírito da época:

“Exhorte a sus feligreses que eviten por todos medios las congregaciones y juntas de jóvenes de ambos sexos, que son muy comunes en esta parroquia, con motivo de hiladas de lino y lana y frecuentes las malas y funestas consecuencias, secuela de semejantes juntas, y que se mantienen no solo en dia sino hasta la mayor parte de toda la noche, en que facilitan su descanso las personas mayores, pero lo resisten los jóvenes de ambos sexos, mezclados con la libertad que quieren, en danzas, en juegos y en una palabra, en lo que se les antoja, como que no tiene freno. Opónese a la crianza cristiana, piérdese la vergüenza y el celo del honor, prenda del sexo femenino…”

Também o Bispo de Mondonhedo, a 25 de Março de 1738 se dirigiu ao Ouvidor Decano da Audiência nos seguintes termos:

“(…) Para evitar estos daños ha prohibido el acuerdo, por punto general, que las mujeres solteras habiten por si y sobre si, solas y que se junten a hacer hiladas y otros oficios de noche en sus casas, mandando que cada una viva en compañía de sus padres o parientes o amos a quienes sirvan (…) que remitam a esta casa de corrección las mujeres que con el título de bodeguras vivem por sí solas, causando escándalo notorio por su incontinencia, extendiéndola a las damas que por su conducta lo merezcan…” Por último se lhes proibia às mulheres ir trabalhar a Castilha ou às romarias a não ser que fossem na companhia de “esposo, padre o pariente” e de incumplir esta lei (5 de Julho de 1776) “las prendan en las cárceles públicas”, e todo isto porque são conhecidas “las pérdidas y ruínas así espirituales como temporales,como la experiencia lo demuestra, que estos eventos provoca, y que después de perderse el santo temor de Dios, que es lo principal, la honra padece innumerables desfalcos.”

Com este panorama a mulher tinha poucas possibilidades de dedicar-se a actividades músico-profissionais.

A razão para que apareçam as primeiras mulheres sanfonistas ou violinistas, como já dissemos, pode ter sido a relaxação de costumes e a perda de poder da Igreja na Galiza depois da desamortização. Também haveria que valorar a hipótese de que mulheres sem valimento com a perda da vista tiveram que ganhar a vida de qualquer jeito. Mas isto são simples suposições.

José Luís d. P. Orjais (C.M.T.F.L.)