Marful, sem disco mas com clube de fans, uma história do revés.

O fenómeno fan é uma característica da cultura de massas que começa provavelmente com esse estandarte do fenómeno que foi Elvis Presley. Daquele momento em que um cantante de rock foi capaz de mobilizar a juventude como quase nada o tinha feito até o momento, todo um mundo de novos mitos e ídolos foi-se criando ao redor dos artistas musicais. Mas com o tempo, nom só no cenário musical existiu o conceito de seguidores ou admiradores. Artistas de cinema, desportistas -nomeadamente futebolistas-, artistas plásticas ou literárias… qualquer personagem público pode ser alvo desta admiraçom organizada.



Isso se nom queremos lançar a olhada muito atrás, porque poderíamos falar deste mesmo fenómeno com outras consequências na idealizaçom de mitos ou heróis na Grécia clássica, ou no seguimento de líderes como Jesus Cristo ou mais tarde, os revolucionários como o Che. Certamente, as consequências e as motivaçons som outras, mas nom deixava de ser uma admiraçom incondicional, sem possibilidade de resposta, e é aí onde esses ídolos podiam ter algo em comum com os ídolos actuais. O fan com esse nome é uma criaçom contemporânea, e diferencia-se por ter o seu objecto de admiraçom em pessoas muito mais próximas, pessoas comuns que deixam de sê-lo nom polos seus factos (polo menos nom só polos seus factos) mas por ser admiradas por um grupo numeroso de pessoas.

Mas o fan é uma personagem que nom tem muito boa fama, sobretudo em meios de “alta cultura”, progressistas e/ou de vanguarda. Sobretudo porque qualquer grande admirador/a de um ícone da “alta cultura” nunca vai considerar-se a si próprio fan. Mesmo quando a sua atitude ao respeito do ícone seja a mesma que a do fan com o ídolo (Penso agora na celebraçom do IV Centenário da publicaçom do Quixote, com tantas características comuns ao fenómeno fan, merchandising incluído). Relacionado desde a sua origem com a cultura pop, é dizer popular, com a juventude ou mesmo a adolescência, com a massa e com a feminidade, nom tinha muitas hipóteses de sucesso noutros ambientes. Fan, já desde a palavra escolhida para denominar este tipo de admiraçom, estava condenada ao fracasso. Fanáticos e fanáticas de ídolos, de mitos que tenhem pouco de realidade, com méritos muitas vezes questionáveis, e que arrastam atitudes que raiam a loucura. Nom tinha muito futuro.

Mas estes dias encontramo-nos na rede com um Clube de fans dum grupo galego que ainda nom publicou o seu primeiro disco. Este facto é surpreendente por si próprio, mas nom fica aí. Por se fora pouco, denominam-se fans e som capazes de justificar essa admiraçom desde um posicionamento rupturista. Porque pouco de cultura de massas pode ter a admiraçom por uns artistas que nom estám nos circuitos comerciais, nem som publicitados nos grandes meios de comunicaçom.
Talvez com este Clube de fans poda aparecer uma nova evoluçom do término e do conceito da admiraçom. Porque já nom se trata de seguir a personagens públicos, com muita tiragem publicitária e que podem supor um modelo de comportamento. Trata-se de apoiar um grupo de artistas em que se confia e que se admira desde o momento da sua criaçom e como resposta ao sistema que pode deixá-los fora. Por que ser fans só daquelas personagens já consagradas, com êxito?. Ou melhor colocar a pergunta desde outro lugar. Que fai com que uns artistas estejam no sistema e na publicidade e outros nom? Pois fagamos com que aqueles artistas que consideramos de qualidade tenham hipótese de ser conhecidos, mesmo desde um âmbito menos normal ou regular. Como na própria página do clube de fans se di:

Os mesmos membros do grupo nom acreditavam em nós, nom acreditavam que isto nom fosse algo mais que uma brincadeira. Andavam entre a surpresa e a incredulidade. E claro que tem muito de brincadeira, mas brincamos com esta miséria de paisinho que fai com que qualquer cousa diferente que se faga seja anormal. Brincamos com esta rebeldia que supom ser fans dum grupo e louvá-lo como se merece num país em que é muito mais fácil dedicar o tempo a destruiçom maciça de iniciativas qualquer. Por isso, somos fans de Marful e gostamos que a gente o saiba, que se una. Gostamos de que existam, de que fagam bem as cousas, de que sejam profissionais da música e desfrutem do que fam, e de que se ponham sérias quando há que falar do seu trabalho.
Enfim, que é um clube de fans mais que o reconhecimento do trabalho bem feito? Pois isso, e um pouquinho de paixom polo resultado, um pouquinho de amor por todos e cada uma juntos e revoltos que é como mais gostamos.

Esse apelo à brincadeira é o que diferencia este clube de fans de muitos outros. É um clube de fans porque as pessoas que o componhem som admiradoras do grupo. E pára de contar. Nom há mais nada em comum entre estes fans e os enfebrecidos que perseguem aos seus grupos favoritos para tocar um milímetro de qualquer cousa que tenha a ver com elas. Nada a ver com o mercado dos arredores, com a idolatria pessoal, com a incondicionalidade artística. É uma brincadeira com vontade de transcender, de entrar no meio através do jogo, mas sem entrar no jogo. Poderia ter outro nome qualquer, ou nom ter nome, mas no mesmo facto de existir como Clube de fans, de organizar-se e de ter um órgao de expresom na internet está a reivindicaçom de apostar polas margens e questioná-las. É uma brincadeira muito séria porque aposta por apoiar um grupo de artistas que funcionam fora dos circuitos comerciais mas com qualidade de sobra para entrar neles e ter êxito. Nom sabemos que transcendência pode ter este facto, mas o certo é que só a sua existência supom uma novidade no fenómeno fan e também no panorama musical galego. Entre outras cousas, porque existe relacionamento entre o clube e o grupo, como se mostra nessas conversas que venhem resenhadas na página ou nas fotos ali publicadas. Ficamos à espera.

[+ info: clubedefansdemarful.blogspot.com]