Julio Prada. 1923 – 2004

Faleceu no dia 31 de Dezembro o notável gaiteiro sanabrês Julio Prada, um dos últimos gaiteiros mais expressivos da tradição musical das regiões espanholas de Sanabria e Zamora (fronteiriças com Trás-os-Montes). Era um gaiteiro carismático e reconhecido internacionalmente pelo conhecimento que detinha do extenso repertório de músicas tradicionais e sobretudo, pela espontaneidade e pela criatividade das suas composições, sempre inspiradas nas músicas tradicionais de Castela-Leão e que chegaram a ser tocadas por Sakamoto, Bagad Kemper, Radio Tarifa e La Musgaña.

As nossas recordaçons desde o CMTF de Lalim.

Na passada noite de passagem de ano, falecia em sua casa, na minúscula povoação sanabresa de Unglide (Zamora) o gaiteiro Julio Prada Guzmán, talvez o último gaiteiro velho de uma das mais ricas comarcas que alimentaram a música tradicional da península ibérica.

Prada nasceu em Ungilde há 81 anos, e até a doença de Alzheimer debilitar as suas articulações, continuou a tocar gaita e a impressionar os músicos e investigadores que o visitavam.

Com apenas 14 anos, na Espanha enlutada pela Guerra Civil, começou Julio Prada a soprar a sua gaita de fole, nas festas, casamentos e danças que se celebravam por Sanabria.

A sua gaita tinha sido construída por Don Paco, o carpinteiro de Santa Cruz de Abrahanes, que a entregou à família Prada como pagamento pela carne de um cabrito.

O empenho de folcloristas como Alberto Jambrina e Pablo Madrid, da Escola de Folklore do Consorcio de Fomento Musical de Zamora, popularizou o trabalho de Prada muito para lá das montanhas que o viram nascer.

Jambrina relata como aquele gaiteiro idoso e completamente autodidacta fascinou o famoso etnógrafo Joaquin Diaz, quando o visitou na companhia de uma doutora de uma universidade norte-americana.

“Julio foi muito mais do que a simples figura do músico tradicional, que como o padre ou o idiota da aldeia, havia em todas as povoações”, realça o gaiteiro José Maria Climent, que interpretou numerosas obras do repertório de Prada. “Era um personagem, um homem muito respeitado porque sabia sempre o que e quando tocar. E, longe de limitar-se às Jotas, Corridos, Pasacalles e Alvoradas do repertório Sanabrês, soube recriar, com muita intuição, outras peças diferentes, como romances, tonadas e cantos de segada”.

Das centenas de músicas que Prada armazenava na sua memória, a Jota Chaconeada alcançou grande popularidade quando foi resgatada pelo grupo La Musgaña, com a colaboração dos Radio Tarifa, para o seu álbum “En Directo” (1997).

Essa mesma composição cruzou os pirinéus e foi adaptada pelos bretões Bagad Kemper no seu disco “Sua-Ar Su”.

O Consórcio de Fomento Musical de Zamora escolheu a Alvorada Sanabresa de Prada para inaugurar a Europeade celebrada em 2001. E Climent assegura que o compositor japonês Sakamoto intercalou um “corrido lento”, intitulado “La bicha” na extensa partitura da inauguração dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.

O legado deste Gaiteiro de Sanabria também ficou imortalizado em algumas edições da discográfica Tecnosaga, com dois volumes (“Tradicion Musical en España”, números 28 e 29) dedicados à música tradicional sanabresa e o disco monográfico “El Gaitero de Sanabria”, para o qual Julio Prada gravou 17 interpretações, entre elas, “La Bicha”, “Jota Chaconeada”, “Alborada de Ungilde” e “El Mandil de Carolina”.

“Foi um homem humilde e sábio, o nosso último gaiteiro velho”, dizia ontem o sanfonista Rafa Martin, que também adaptou composições do repertório de Julio Prada para o seu disco “En la Espalda del Gigante” (2002).